GRUPO PELA ABOLIÇÃO DO ESPECISMO
Por mais que o título do capítulo sobre animais nos suscite o enfoque bem-estarista, o que o diálogo entre dois importantes pensadores nos traduz são reflexões nada óbvias ao campo em que transitamos com nossas referências usuais. Porém sim, há partes que podem perfeitamente ser classificadas como bem-estaristas, porque Derrida vê a emergência de uma mudança de mentalidade em curso no rumo do repúdio à violência contra os animais e, ao mesmo tempo, parece se contentar com o fato de que é possível “mudar as condições qualitativas, a quantidade, a avaliação da quantidade, bem como a organização geral do campo da alimentação” (p.99). A intuição me sugere que ele teme ir além, muito embora gostasse. Em outra passagem do referido diálogo, ele dirá: “na transformação do direito atual, mesmo conservando a axiomática geral do direito humano, progressos podem ser feitos para o aprimoramento das relações entre os homens e os animais no sentido do respeito máximo. Não estou dizendo que não se deva tocar na vida animal, digo que não se deve, alegando a violência existente entre os animais, na selva ou em qualquer outro lugar, se entregar às piores violências, isto é, ao tratamento puramente instrumental, industrial, químico-genético deles” (p. 93)
Note-se que Roudinesco está sempre confrontando Derrida e que Derrida não chega a ousar nada que se aproxime do abolicionismo, embora se mantenha irredutível no ataque à violência contra os animais. A objeção de Roudinesco ao vegetarianismo é estranha para nós. Sua ideia de que é preciso comer carne não se refere a aspectos nutricionais, mas psicanalíticos. Recebe de Derrida a seguinte resposta: “não basta se proibir de comer carne para se tornar não-carnívoro. O processo carnívoro inconsciente tem muitos outros recursos se não acredito na existência do não-carnívoro em geral. (…) A psicanálise nos ensinou: os vegetarianos também podem incorporar, como todo mundo, e simbolicamente, o vivo, a carne e o sangue – de homem ou de Deus…” ou do animal. (p. 87) Isso porque “existe no consumo da carne, como aliás no caso da pena de morte, uma estrutura sacrificial, e portanto um fenômeno cultural ligado a estruturas arcaicas que persistem e que é preciso analisar. Provavelmente nunca se deixará de comer carne ou (…) algum substituto da coisa carnada.” (p. 91)
Enfim, ele aposta numa substituição simbólica, enquanto ela resiste a esta possibilidade, baseada na força da pulsão de destruição.
Embora o diálogo siga por outros caminhos (eles falarão sobre touradas, personalidade jurídica, genocídio, contrato jurídico, passarão por Kant, Bentham, Lévinas, Lacan, Heidegger, Adorno, Ferry), essa foi a parte que mais me interessou, que lamentei não tivesse sido mais explorada e que, penso, deveria interessar aos movimentos de defesa animal, isto é, perscrutar o que está por trás da defesa da ingesta de carne, que esteja para além do paladar e da ordem do dietético. Que estão escondidas e caladas em camadas mais profundas, enquanto nós, da defesa animal, só mexemos na exterioridade.