GRUPO PELA ABOLIÇÃO DO ESPECISMO
Na semana que passou a população riograndina teve notícias de mais um caso de maus tratos a animais, que levou a questionamentos e adilemas, visto envolver o assunto religião. Um pobre animal, assim como muitos dos que vemos por aí jogados em cruzamentos (encruzilhadas) de ruas ou em áreas verdes menos habitadas (vegetação do jardim sol, beira de estradas, etc..) e mortos, foi encontrado com vida por transeuntes que se sensibilizaram com o sofrimento. Buscaram ajuda junto a professoras da escola pública Getúlio Vargas, as quais resgataram o animal com as duas asas e patas quebradas, abandonado para morrer de dor, de inanição, sede, atropelado, etc… As professoras passaram grande parte de seu sábado de folga procurando soluções a fim de que a ave tivesse destino diferente do almejado pelos seres cruéis que o torturaram e depois o “arrumaram” em uma encruzilhada, com pacotes vermelhos e alguns charutos. Pude presenciar no dia posterior o sofrimento do animal, aos cuidados de pessoa humilde, de situação financeira limitada, e de coração nobre.
Acompanhei o desenrolar dos comentários à matéria publicada no jornal, e inclusive a denúncia feita na Câmara de Vereadores. Fiquei feliz em ver a unanimidade de opiniões em condenar o ato. Aprendi que umbanda não usa animais em seus rituais (mas não entendo porque o título da matéria do dia 28/10 do jornal Agora, fala em líder umbandista e este afirma o uso de animais). O usam as religiões de matriz africana, que segundo sustentaram seus representantes, não aprovam animais quebrados jogados nas ruas. Afirmou o Sr. Nilo: “Nós não queremos sofrimento em nossas vidas, então, por que fazer um animal sofrer? Não tem lógica. Nós sacrificamos animais em nossas festas, mas sempre para nos servir de alimento".
Ou seja, sempre que a discussão sobre morte de animais em ritos religiosos vem à tona, a justificativa “nobre” é a que este animal depois de manipulado nos ritos (e sinceramente não consigo entender como um ser que não quer morrer e sente dor, não sofra), serve de alimento.
Assim também os povos antropófagos comiam seus inimigos, a fim de absorverem suas qualidades.
Como disse a Dra. em filosofia Sonia Felipe quando palestrou em Rio Grande há cerca de dois anos, o ser humano cultua a “religião do prato”, “meu prato é sagrado, não ponham as mãos nele. Eu PRECISO de pedaços de animais em meu prato para viver. Aprendi a ser assim, não tirem a minha comida! Vou morrer sem ela.” Ao longo da história o uso de animais humanos passou a ser abominado pela espécie (embora às vezes surjam notícias de que tais atos continuem acontecendo), infelizmente os animais de outras espécies ainda o continuam sendo. Ao longo da história muitas vozes também têm se levantado contra o hábito alimentar humano de servir-se de outras espécies (Anna Kingsford, Helena Blavatsky, Gandi, Henry Salt, Schopenhauer, Plutarco e tantos outros nomes) e muitos humanos entenderam que o sagrado do seu prato é justamente não alimentar-se de seres sencientes, aprenderam que NÃO DEVEM E NÃO PRECISAM alimentar-se dos corpos dos animais não humanos.
Assim como muitos seres humanos trocaram e trocam seus hábitos a cada dia, substituindo os animais do seu prato por uma infinidade de alimentos sem precisar da morte de seres sencientes, as religiões que ainda os usam poderiam fazer o mesmo.
Riobaldo, o personagem de Guimarães Rosa, nos diz “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.” Esse número expressivo de pessoas que discordam do uso de animais em ritos religiosos, embora ainda não seja de vegetarianos, tem no seu íntimo a desconfiança de que alguma coisa está errada… Tom Regan (filósofo da libertação animal) os chama de “relutantes”. Todos os humanos pertencem à mesma espécie animal e ninguém é superior a ninguém, mas todos podemos fazer diferença a cada dia, para milhões e milhões de seres indefesos escravizados, torturados, explorados, comidos, somente pelo fato de não pertencerem à nossa espécie. Seja vegano.
“Não acredito nas religiões, mas tenho uma fé religiosa muito firme e pessoal – um ‘credo de afinidade’, como o chamo – a crença de que nos anos por vir haverá um reconhecimento de fraternidade entre homem e homem, nação e nação, animais humanos e não humanos, que irá transformar um estado de semi-selvageria, como o que temos hoje, em um de civilização, onde não teremos tamanha barbárie como a guerra, como o roubo dos pobres pelos ricos ou o doentio uso de animais pela humanidade.” (Henry Salt 1851/1939)
Márcia Chaplin, advogada, radialista, componente do GAE – Grupo de Abolição do Especismo (http://www.gaepoa.org/)
Publicado em: http://www.jornalagora.com.br/site/content/noticias/detalhe.php?e=5&n=19600