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ARTIGO

Por que não devemos comer o presépio


Maria de Nazareth Agra Hassen

À data mais sagrada dos cristãos equivale a maior matança de animais por motivo fútil do ano.


Naocomaopresepio
É na época de Natal que princípios, baseados na compaixão e na solidariedade, se voltam para pedidos de paz. Os cristãos celebram o nascimento de seu Cristo, em cerimônias mais retrospectivas umas, mais festivas outras. Denuncia-se o consumismo, de um lado e, de outro, fundam-se promessas de amizade, enquanto se anuncia a passagem de ano.

Uma reflexão pouco feita nesta época é, porém, a que se dirige às maiores vítimas das festas de fim de ano, os animais.

Existe justificativa para a condenação à morte de seres inocentes de qualquer culpa? No caso de respondermos de forma negativa à pergunta, existiria justificativa para contratação de terceiros para a execução dos inocentes, já que ela não nos deixa confortáveis?

São perguntas que deveríamos nos colocar ao refletirmos sobre a relação que mantemos no nosso cotidiano com algumas espécies animais. Em um contexto em que médicos nutrólogos e nutricionistas vêm afirmando a possibilidade de uma vida saudável a quem recusa a utilização de produtos animais na alimentação, só podemos explicar tal fato pela imposição cultural e pelos resquícios de barbárie que ainda nos restaram, a despeito dos sentimentos cristãos de piedade e compaixão e do processo civilizatório em curso.

Justamente este último é responsável por importantes mudanças culturais ocorridas no último século, quando mulheres, homossexuais, negros e portadores de necessidades especiais tiveram seus direitos reconhecidos em todos os campos. O que falta para que outros seres sejam incluídos na esfera de direitos? Justamente falta a superação do preconceito de espécie, chamado especismo, pelo qual uma espécie se autodefine como superior às demais, podendo a partir daí fazer amplo uso delas. No caso, por explicável coincidência, a espécie superior é a do proponente da tese.

Na contramão deste pensamento dominante e incrementado pela indústria que se beneficia da exploração destes seres, a tese dos direitos animais vem sendo aperfeiçoada ao longo das últimas décadas pelos mais importantes filósofos contemporâneos.

De 1975 (lançamento do livro Libertação Animal de Peter Singer) para cá, passando pelo livro (The Case of Animal Rights, 1983, de Tom Regan), foi se constituindo um aparato conceitual para conferir base teórica a uma teoria dos direitos animais, cujo defensor mais extremado é o professor Gary Francione, doutor em Direito pela Universidade da Virgínia e autor de Animals, Property, and the Law (1995).

Pela teoria dos direitos animais, os seres vivos são classificados pelo seu interesse em continuar a existir e a sua capacidade de sentir dor (senciência), em razão da qual devem ter reconhecidos os seus direitos a uma vida plena. Concorde-se ou não, é este o sentido da locução Direitos Animais. Ela é totalmente incompatível com qualquer uso dos animais, cause este uso mais dor ou dor nenhuma. Por esta teoria, os animais não são coisas, não são propriedade: quando muito e no caso dos animais domesticados, os humanos podem ter-lhes a guarda, visando protegê-los. No mais, os animais devem ser livres, e nossos hábitos e nosso cotidiano devem ser isentos de uso de produtos de origem animal, testados em animais ou derivados de qualquer uso animal.

Mesmo que alguns humanos achem que é exagero e radicalismo, o certo é que os animais só teriam a ganhar com a aplicação de tal teoria, pela aplicação da qual deixaríamos de ser especistas.

Muitas pessoas dizem amar os animais e não se dão conta que, ao dizê-lo, às vezes, ainda não terminaram de digerir o cadáver de um boi, vaca, galinha, ovelha. Pode a coxa da galinha ainda não ter cruzado o limite entre o intestino grosso e o fino do declarante. Não é preciso esforço para notar a incoerência da afirmação com as práticas.

Argumentos lançados aos veganos (pessoas que aboliram o uso de animais no seu cotidiano) de que esses não têm dó das cenouras, menções à cadeia alimentar ou às tradições estão respondidos à exaustão em sites relacionados ao tema, no item das perguntas frequentes. São perguntas pueris, que só servem como tentativa de aplacar a consciência de quem foi provocado a pensar um pouco mais em suas práticas e no prejuízo que elas levam a outros seres que, como nós, sofrem. Mais do que isso, são os animais seres inocentes, no inequívoco sentido de que inocência é a ausência de culpabilidade. A quem não interessa cometer diariamente injustiças com inocentes, resta o caminho de repensar suas práticas, tendo como horizonte o fato de que cultura alguma é imutável, mas todas as culturas são dinâmicas. Tanto assim é que os cristãos não mais são levados a arenas onde deveriam enfrentar leões, com desfecho previsível. E assim parece oportuno perguntar se não seria a libertação de seres inocentes uma boa razão para uma celebração natalina? E isso pode começar não se comendo o presépio.



Sobre o autor

Maria_de_nazareth_agra_hassen
Maria de Nazareth Agra Hassen
Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Mestre em Antropologia Social e Graduada em Filosofia, atualmente é professora no Centro Universitário Ritter dos Reis, onde leciona antropologia e filosofia nos cursos de Direito e Pedagogia. Recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura, categoria Ensaio de Humanidades (2000) pelo livro de sua dissertação, O Trabalho e os Dias: ensaio antropológico sobre trabalho, crime e prisão. Coordena a *Coleção Filosofinhos*, tendo escrito os volumes Sócrates, Platão e Descartes (Prêmio Os Correios e o Sul, 2003) e é uma das autoras de *Aqui dentro há um longe imenso*, novela juvenil.

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