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ARTIGO

Sobre a polêmica do Holocausto Animal


Rafael Bán Jacobsen

O caso da representação impetrada recentemente pela ONG ABC sem Racismo ... ilustra muito bem dois fatos bastante comuns: o analfabetismo funcional e o egoísmo da dor.


Treblinka
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Rafael Bán Jacobsen

É, no mínimo, emblemático o caso da representação impetrada recentemente pela ONG ABC sem Racismo, baseada em denúncia da Afropress, sobre imagens veiculadas pelo site Holocausto Animal, imagens em que escravos africanos amordaçados aparecem justapostos a cães com focinheira e nas quais, também, judeus aprisionados em campos de concentração aparecem lado a lado com diferentes animais em cenas de confinamento e abate. É emblemático, pois ilustra muito bem dois fatos bastante comuns: o analfabetismo funcional e o egoísmo da dor.

Comecemos pelo segundo. Há uma lei natural do ser humano: a minha dor é sempre a maior dor do mundo. E isso vale tanto individualmente (a minha dor de dente com certeza é mais forte do que a do vizinho) quanto coletivamente. Sendo judeu, cresci acostumado ao eterno sentimento de pesar e dor da comunidade com relação aos antepassados exterminados pelos nazistas no Holocausto. Todos os anos, lembramos e lamentamos o fato, oramos, acendemos velas. A dor de nosso povo é incomensurável. Calculo que, na comunidade negra, o sentimento relativo ao período da escravidão seja análogo. Dessa forma, qualquer um que venha tentar equiparar sua dor à nossa já, de antemão, não costuma ser visto com muita simpatia. Ora, que petulância: imaginar que sofre tanto quanto eu! Pior ainda se esse outro for o que milhares de anos de cultura antropocêntrica vieram a estigmatizar como seres “irracionais” e, portanto, inferiores. Comparar a dor humana com a de animais não-humanos, que petulância! Convém lembrar que tanto o massacre dos judeus quanto a escravidão dos africanos tiveram por base a aceitação desse estigma de inferioridade. Não admitir a existência dessa dimensão que se pode denominar “racionalidade”, “alma” ou “psiquismo” nos judeus, nos negros ou nos animais é uma forma de exercício de poder. Se é assim, posso usá-los como bem entender, sem enfrentar dilemas morais. É dessa forma, admitindo a inferioridade, que, por exemplo, instituições como o clero (até suas mais altas esferas, no Vaticano) conviveram tranqüilamente com a opressão dos negros e dos judeus. Por esse mesmo mecanismo, agora, todos nós, indivíduos da espécie humana, convivemos com o uso dos animais para satisfação de nossos interesses (não só convivemos com o uso como o temos como perfeitamente natural, sendo quase impensável um mundo sem isso). A postura humana de colocar suas mais desimportantes preferências (satisfação do paladar, busca por testar um cosmético, vestir uma certa roupa) à frente dos interesses mais fundamentais dos outros animais (não sentir dor, crescer em seu ambiente natural, não ser morto) é o que se convencionou chamar, na filosofia dos direitos animais, de especismo, em analogia com palavras tais como racismo ou sexismo. As imagens veiculadas pelo site Holocausto Animal não são nada mais do que uma ilustração desse conceito: dor é dor, exploração é exploração, humilhação é humilhação, não importando a cor da pele, a etnia, o tamanho do nariz e, por incrível que pareça, nem mesmo a espécie. Chegamos aí na questão do analfabetismo funcional.

… as polêmicas imagens, que, como disse, tentam apenas explicitar o conceito de especismo, estão baseadas em trabalhos de diversos filósofos que se debruçam sobre a questão dos direitos animais.

Certamente, um desavisado que vá olhar as imagens terá, como primeira reação, o ato reflexo de se sentir ofendido, isso devido ao egoísmo da própria dor e ao desconhecimento do conceito de especismo, temperados pela mentalidade antropocêntrica atávica. É aquilo: o sujeito lê (aqui tem um porco, ali tem um judeu; aqui tem um escravo negro, ali tem um cachorro), mas, por falta de informação, não entende o sentido da mensagem, que é bem mais sutil, avesso a interpretações reducionistas do tipo “estão fazendo pouco da minha dor” ou “estão me chamando de porco”.

Aliás, as polêmicas imagens, que, como disse, tentam apenas explicitar o conceito de especismo, estão baseadas em trabalhos de diversos filósofos que se debruçam sobre a questão dos direitos animais. Um dos mais eminentes é o australiano Peter Singer, autor do clássico Libertação Animal, de 1975. Na obra, em diversos trechos, Singer invoca barbáries praticadas por humanos sobre outros grupos de humanos (judeus e africanos, inclusive), estabelecendo um paralelo ilustrativo com o tipo de barbárie que todos nós cometemos contra tantos animais sensíveis e conscientes. Singer, por acaso, é judeu, e seus avós pereceram em campos de concentração. Mas a polêmica comparação não é monopólio de Peter Singer ou do site Holocausto Animal.

Se o sujeito abrir uma novela muito interessante chamada O Penitente, de autoria de Isaac Bashevis Singer, judeu e Prêmio Nobel de Literatura, vai se deparar com o seguinte trecho, em que o narrador, um judeu relapso que decide se voltar à espiritualidade e abandonar as coisas mundanas, tornado-se justo e virtuoso, se questiona sobre a exploração dos animais: “Há muito eu chegara à conclusão que o tratamento do homem para as criaturas de Deus torna ridículos todos os seus ideais e todo o pretenso humanismo. Para que este estufado indivíduo degustasse seu presunto, uma criatura viva teve de ser criada, arrastada para sua morte, esfaqueada, torturada e escaldada em água quente. O homem não dava um segundo de pensamento ao fato de que o porco era feito do mesmo material e que este tinha de pagar com sofrimento e morte para que ele pudesse saborear sua carne. Pensei mais de uma vez que, quando se trata de animais, todo homem é um nazista.”

Mais ainda, se alguém resolver ler mais um pouco de boa literatura, pode esbarrar com o livro A Vida dos Animais, do Prêmio Nobel, J.M. Coetzee, no qual se lê o seguinte trecho: "Aparentemente, eu me movimento perfeitamente bem no meio das pessoas, tenho relações perfeitamente normais com elas. É possível, me pergunto, que todas estejam participando de um crime de proporções inimagináveis? Estou fantasiando isso tudo? Devo estar louca! No entanto, todo dia vejo provas disso. As próprias pessoas de quem desconfio produzem provas, exibem as provas para mim, me oferecem. Cadáveres. Fragmentos de corpos que compraram com dinheiro. É como se eu fosse visitar amigos, fizesse algum comentário gentil sobre um abajur da sala, e eles respondessem:

‘Bonito, não é? Feito de pele judaico-polonesa, é o que há de melhor, pele de jovens virgens judaico-polonesas.’ E aí eu vou ao banheiro, e a embalagem do sabonete diz assim: ‘Treblinka – 100% estearato humano’ Será que estou sonhando, pergunto a mim mesma? Que casa é esta? E não estou sonhando, não. (…) Calma, digo para mim mesma, você está fazendo tempestade em um copo d´água. Assim é a vida. Todo mundo se acostuma com isso, por que você não? Por que você não?"

Posso ainda dar um exemplo pessoal. Sou escritor e, recentemente, participei de uma coletânea de contos chamada Ficção de Polpa (Editora Fósforo, 2007), e meu conto, de ficção cinentífica, tem por título “Quando eles chegaram”. A história é uma tentativa de resposta a uma velha questão da retórica vegetariana: o que nós humanos pensaríamos e sentiríamos se uma espécie alienígena que se julgue superior invadisse nosso planeta e fizesse conosco tudo o que hoje fazemos com os animais? Qual não foi minha surpresa ao perceber que 80% dos leitores haviam enxergado, no meu trabalho, uma metáfora do holocausto judaico, embora eu não tivesse pensado nisso um segundo sequer ao escrever o texto.

Ou seja: o paralelo entre a escravidão, a exploração e a matança de judeus e negros com a escravidão, a exploração e a matança de animais existe, queira eu, Rafael Bán Jacobsen, ou não, queira a ONG ABC ou não, queira a Afropress ou não, queira o Papa ou não. E ela está por aí, é de domínio público: não pertence ao Holocausto Animal, nem a Peter Singer, nem a Coetzee, nem a Bashevis Singer, nem a mim (a rigor, a polêmica campanha do Holocausto Animal nada mais é do que uma simples tradução de uma conhecidíssima campanha do Peta – People for Ethical Treatment of Animals). Na dúvida, pelo bem da justiça, todos devem ser processados, não apenas um certo site tupiniquim, fazendo as vezes de bode expiatório. Sejamos coerentes. Processemos o Peta. Processemos Peter Singer. Processemos Coetzee. Processemos Bashevis Singer. Não, esse não, esse já morreu. Processemos então a Academia Sueca, por ter prestigiado esses dois últimos pusilânimes preconceituosos com o Prêmio Nobel. Processemos Rafael Bán Jacobsen, por acreditar que o paralelo existe e por, apesar de ser judeu, não se sentir violentado pela comparação (sente-se violentado, sim, por um grupo de pessoas de quem nunca ouviu falar se dar o direito de se posicionar por ele e dizer “nós judeus estamos ofendidos”). Processemos o inconsciente coletivo.

A leitura engrandece e diminui a ocorrência de interpretações errôneas e sem sentido maior do que aquele ditado pelo nosso egoísmo, nossa ignorância e nossa prepotência.

Antes disso, porém, recomendo que todos leiam Peter Singer, leiam Coetzee, leiam Bashevis Singer. A leitura é redentora. A leitura engrandece e diminui a ocorrência de interpretações errôneas e sem sentido maior do que aquele ditado pelo nosso egoísmo, nossa ignorância e nossa prepotência.

É a esse ponto que nossa racionalidade nos conduziu: duas guerras mundiais, devastação ambiental, crescimento populacional desenfreado, aquecimento global e até mesmo peleja de ONGs que, no fundo, lutam pelos mesmos ideais – justiça, igualdade e não-violência.

Pobres animais, que não podem reclamar de serem comparados conosco.

Pobres de todos nós, que festejamos nossa racionalidade enquanto o mundo desaba sobre nossas cabeças.

Que a paz esteja conosco – se ainda houver lugar para ela!

Shalom aleichem.




Sobre o autor

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Rafael Bán Jacobsen
É físico, professor, pianista, poeta e escritor. Recebeu dois prêmio Açorianos pelos livro Tempos & Costumes e Solenar e publicou também Uma Leve Simetria. Trabalha com pesquisa em Cosmologia e em Física Nuclear e de Partículas na UFRGS. É coordenador do Grupo SVBPOA, da Sociedade Vegetariana Brasileira, em Porto Alegre e é membro do GAEPOA.

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Tag movimentos sociais 2a guerra mundial racismo especismo
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