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ARTIGO

ProteJer o quê?


Juan Maiz Lulkin Flores da Cunha

A temporada de caça foi suspensa no RS em 2007, mas estamos a proteger o quê?


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Observação importante: Os links deste artigo apontavam para o site da Associação Gaúcha de Caça e “Conservação”, mas este saiu do ar em 2008. Felizmente, os artigos deste ainda estão no Internet Archive

Neste primeiro de junho foi oficialmente suspensa a temporada de caça 2007 no estado do Rio Grande do Sul pela excelentíssima juíza Clarides Rahmeier.

A priori esta parece ser uma ótima notícia. Mas devemos lembrar que a fiscalização é mínima, devido principalmente à cultura especista em que vivemos.

Depois, a proibição é temporária, isto é, “até que se tenham estudos conclusivos de que a sua continuidade não representa riscos às espécies de fauna visadas” conforme o despacho da juíza. Logo, o único valor dado aos marrecões e perdizes é relativo às suas espécies, ou seja, a um valor abstrato, que está mais relacionado à necessidade humana do que ao respeito aos indivíduos.

Novamente, trata-se de não reconhecer o valor intrínseco destes animais, mas sim, valorizá-los apenas em relação ao interesse humano.

E os argumentos de quem defende a caça são um tópico à parte. Forçados pelos avanços éticos da sociedade, os caçadores (desportistas, como preferem) envoluíram em pouco tempo do velho e arcaico argumento: homem-das-cavernas-sou-gaúcho-muito-macho-pois-mato-passarinho-na-bala-uh!tererê “é uma tradição de longa data que deve ser mantida com orgulho” para um nova-era-ecologista-quase-metrossexual-mato-porque-me-preocupo-com-o-aquecimento-global “a a caça é justificável pois conserva os habitats naturais e mantém as populações das espécies controladas”.

Como já foi muito bem lembrado, o argumento ecológico da caça não se sustenta: se caçar é justificável por manter o habitat natural e controlar as populações, é éticamente justificável que deixemos de caçar perdizes e passemos a caçar seres humanos, uma vez que estes são a maior fonte de poluição, os maiores responsáveis pela perda de habitat, pelo desequilíbrio e extinção de espécies.

… é absurdo compararmos o sofrimento que os animais são submetidos com o prazer fútil e discutível da caça. Além disso, existem clubes de tiro ao alvo e jogos de computador que simulam caçadas

Quanto à caça ser um entretenimento, também é absurdo compararmos o sofrimento que os animais são submetidos com o prazer fútil e discutível da caça. Além disso, existem clubes de tiro ao alvo e jogos de computador que simulam caçadas que podem muito bem ser utilizados por quem realmente não abre mão desta prática (Uau, que diversão, matei um cervo, como sou poderoso(a)!) mas é sensato o suficiente para diferenciar o sofrimento real da ficção. Mesmo assim, fazer apologia à violência por meio de um mundo virtual não me parece muito razoável – trata-se de um outro tópico que não vou abordar aqui.

O mais interessante é dar uma navegada no site da Associação Gaúcha de Caça e Conservação (posso conservá-los também?) e estudar a retórica e as táticas utilizadas por estes grupos.

Uma excelente matéria do site sobre a “ética na caçada” (isso me parece uma contradição em termos). Seguem os melhores trechos:

O caçador ético sabe os limites de sua arma e de sua habilidade de tiro e sempre tentará um tiro “limpo”.

As aspas duplas já dizem tudo, não é mesmo?

Um verdadeiro esportista faz tudo o que pode para aprimorar suas habilidades. Se ele não é um exímio atirador, treinará duro até conseguir o máximo de prática que puder. Em outras palavras, ele tem respeito pelo seu troféu, caçando de maneira, justa e esportiva. Como um caçador ético, um verdadeiro esportista, ele crê em “perseguição justa”, e nunca toma vantagem desonesta na caçada. … É um caçador ético o que oferece a um amigo uma vantagem para um bom tiro, generosamente oferece seu conhecimento ao novato, para que este ganhe experiência, tem prazer em dividir tanto sua atividade quanto a caça obtida com os companheiros. O caçador antiético é aquele que conta aos gritos seu sucesso quando chega a seu limite e inventa desculpas quando não consegue. Sua preocupação não é como, mas o quanto pode caçar.

Repare na quantidade de animais mortos na imagem em http://www.agcc.com.br/jornal%5Fonline/18/pdf/p_06.pdf

Utilizando a própria retórica dos caçadores, (ahn, desportistas), eu poderia rearranjar as frases de forma a montar uma nova sentença:

A caça é importante para manter o habitat e controlar as populações. Por isso convido os amigos caçadores da associação a realizarem o primeiro campeonato desportivo de “conservação” em meu sítio. Nesta primeira competição, eu e meus companheiros faremos parte da equipe de vermelho, que atuará como caçadora, enquanto meus convivas da associação poderão atuar pela equipe de branco, que será a caça. Como acreditamos na “perseguição justa”, a equipe caçadora poderá utilizar espingardas, cachorros e iscas, enquanto a da caça estará a pé e desarmada, não poderá falar, nem exigir direitos, a não ser quando sua espécie estiver ameaçada de extinção. Além disso, como somos caçadores “éticos”, vamos treinar duro para dar apenas tiros “limpos”, para que a equipe da caça não sofra “desnecessariamente”, respeitando assim nossos “troféus”. Serei “generoso” e darei uma vantagen a meus amigos menos experientes. Terei “prazer” em dividir a minha “atividade” com meus companheiros. Não irei contar meus “sucessos” aos gritos, não inventarei desculpas quando não conseguir, e me preocuparei apenas em “como” realizo minha caçada e não na “quantidade”.

Estes mesmos caçadores que defendem o tiro “limpo”, a “perseguição justa” e que respeitam o seu “troféu”, abrem mão de toda a retórica conservacionista e relatam de forma poética em uma inocente crônica (passada em Águas Claras, Viamão):

Depois que comecei a caçar com alguns amigos, fui tomar conhecimento de como era emocionante a caçada do mais veloz dos palmípedes, o famoso marrecão-de-crista-vermelha.

Repare: a caçada era “emocionante” e não “conservadora”.

Quando lá chegamos, descarreguei da camionete as chamas, as armas e as munições e, pronto, agora só faltava penetrar no banhado, e invadir o habitat natural do marrecão.

Wow, “invadir” o habitat natural soa bem conservacionista.

Meu amigo Beto pegou um apito e começou a assoviar. Elas voavam alto e fizeram uma volta de reconhecimento nas negaças. Ele continuou chamando e elas começaram a descer. Quando elas ficaram a uma altura de uns trinta metros, ele atirou.

Hum, assoviar, utilizar chamas (iscas) e negaças (esconderijos) fazem parte da perseguição “justa”.

Os três marrecões vinham direto às chamas, procurei enquadrá-los na minha linha de tiro dos canos paralelos de minha 12. Apertei as teclas dos gatilhos, com um intervalo de fração de segundos. Ouviu-se duas detonações. Dezenas de chumbos número 5 rasgando o espaço em direção à apreciada caça. Dois marrecões despencaram, fulminados e o terceiro pareceu dar um salto, depois procurou escapar num vôo horizontal e em alta velocidade. Quando passou voando pelo meu amigo Beto, ele deu mais dois tiros no marrecão, só que ele conseguiu fugir.

Beto deve ter seguido as regras do tiro “limpo” e certamente anda treinando duro para ter mais prática.

O terceiro marrecão fez um vôo ao nosso redor a mais ou menos uns cem metros de distância e veio novamente em direção das chamas, pois estava procurando os seus companheiros, que já haviam sido abatidos por mim e estavam boiando junto com as chamas.

Já pensaram na possibilidade de eles fazerem parte da mesma família? Talvez vocês tenham matado a mãe do marrecão, ou melhor: talvez tenham matado os filhos dela. Mas é claro que não iriam poupá-la, afinal, seria injusto deixar uma mãe sofrendo:

Quando o terceiro marrecão entrou na linha de tiro, Beto atirou e o mesmo parecia ter desviado dos chumbos, foi quando notei que aquele tiro era para mim. Levantei minha 12 e puxei o gatilho. Lá estava o crista-vermelha, no chão, boiando junto aos outros marrecões, que eu já havia abatido anteriormente.

Parabéns!

Fiquei surpreso e muito emocionado, pois em nenhuma caçada eu havia conseguido abater três marrecões quase ao mesmo tempo.

Ah, o caçador ético não deve louvar demais seus sucessos e se preocupar mais em “como” e não em “quanto”…

Dei ali por encerrada a caçada daquele dia. Num dia em que foi mais do caçador do que da caça.

E qual dia não é? Caçador é quem mata, caça é quem morre, faz parte da definição, meu chapa!

Outra matéria pró-caça deveras interessante publicada originalmente em O Eco, sob o título “Proteger o quê?” e publicada novamente na revista da associação sob o título “Protejer o quê?” (num bom portunhol) escrito pela senhora Maria Teresa Jorge Pádua, fundadora do Funatura, ganhadora de diversos prêmios e ambientalista reconhecida internacionalmente. Nesta matéria, fica visível que a estratégia utilizada internacionalmente para difamar os Defensores dos Direitos Animais (e muito bem documentada em Jaulas Vazias, de Tom Regan) está começando a virar moda por aqui também!

Diz ela no artigo:

Os argumentos dos vegetarianos são como os argumentos de fé religiosa, ou seja, não são discutíveis. São dogmas. O fanatismo que movimenta alguns vegetarianos é comparável ao que alimenta o terrorismo. Só traz prejuízos para a espécie humana e para seus companheiros de viagem no planeta Terra. Radicais desta espécie não comem carne porque ela é proveniente de seres vivos. Ora, os vegetais também são seres vivos.

Cara Maria, apesar de seus títulos, prêmios e histórico, é visivel que, das duas uma: ou você escreve este texto com uma pré disposição a manipular o leitor leigo, ou lhe falta muito (muito mesmo) embasamento teórico na questão do vegetarianismo e dos Direitos Animais. Como adoro discutir e argumentar, vou me prestar a responder o seu postulado.

A primeira falácia de sua argumentação é afirmar que os vegetarianos não comem carne por se tratarem de seres vivos. Isso é simplesmente uma mentira. O vegano ético não come animais pois estes são seres sencientes, o que é bastante diferente de “ser vivo”. (discutirei mais abaixo).

Uma das áreas que mais cresce nas faculdades … é a dos Direitos Animais. É um terreno fértil em termos de discussão e possui um número de publicações e livros crescendo exponencialmente.

A segunda é afirmar que o vegetarianismo é um dogma, que não pode ser discutído e que os vegetarianos mais radicais são comparáveis a terroristas. Este é o tipo de afirmação que já parte para o descrédito do outro. É como: “Não discuta com vegetarianos pois eles são como os terroristas de 9/11. Absolutamente tudo o que eles dizem é mentira”. Alguém disposto a discutir não deveria apelar a tais falácias. Uma das áreas que mais cresce nas faculdades de filosofia e direito no mundo é a dos Direitos Animais. É um terreno fértil em termos de discussão e possui um número de publicações e livros crescendo exponencialmente.

A terceira falácia evidente é afirmar que o vegetarianismo “só traz prejuízos para a espécie humana e para seus companheiros de viagem no planeta Terra”. Não há fonte, nem dados no artigo que embasem esta colocação. Em contrapartida existem diversos argumentos políticos, de saúde, econômicos e ambientais que suportam o vegetarianismo como uma opção benéfica também para os seres humanos. Afirmar o contrário – e é o que ela faz, utilizando o “só traz” – é prestar um desserviço público e é absolutamente irresponsável. Importantes órgãos internacionais como a FAO estão colocando o gado na pauta da agenda da questão do aquecimento global, da destruição dos recursos hídricos, da perda da biodiversidade e principalmente da destruição da “nossa” floresta Amazônica. Ah, esta notícia é de novembro de 2006 e a matéria que estou discutindo é de janeiro de 2007, portanto não há justificativa para a desinformação.

Mesmo assim, devo lembrar que a ética é sempre uma questão de reconhecer um “outro”. Quando o fazemos, acabamos tendo de limitar certas atitudes. Por exemplo, não realizamos canibalismo, pois reconhecemos a existência de um “outro”, uma “pessoa”. Também não aceitamos que sejam feitas experiências científicas invasivas e não consentidas em judeus, não botamos fogos em mulheres, nem nos divertimos dando tiros “limpos” em negros (infelizmente, tudo isto já foi feito no passado recente), mesmo que tudo isto possa “trazer prejuízos aos homens brancos”. Logo, mesmo que algumas atitudes não sejam especialmente benéficas para o homo sapiens, ou para algum grupo específico, a ética de reconhecer um “outro” nos animais nos leva a aceitá-la. O contrário é profundamente especista (ou racista, machista, nazista…).

Por fim, ainda sobre a terceira falácia, gostaria profundamente de entender como é que um pássaro, um companheiro nesta viagem no planeta Terra (ou “troféu”, como queiram), ao ser atingido por um tiro (“limpo”, é claro), agonizando, vendo sua viagem chegar ao fim em dor e sofrimento, está sendo “beneficiado” pelos bondosos caçadores e sofrendo “prejuízos” pelos dogmáticos, fanáticos e terroristas vegetarianos que se opuseram a esta prática tão relevante.

Primeiro, vou levar em consideração a sua colocação como verdadeira. Digamos que seja errado matar coisas vivas. Mesmo sobre esta perspectiva o vegetarianismo seria perfeitamente razoável. Como você deve saber, o gado também come (bastante!). Logo, quando comemos carne, estamos comendo muito mais “material vivo total” do que em uma dieta vegana. A produção de carne para alimentação humana, do ponto de vista econômio é um enorme desperdício. Se assim fosse estaríamos seguindo o princípio ético que me parece razoável em que “se não puder fazer tudo, faça tudo o que puder”.

Mas estar “vivo” não tem implicação moral e ética alguma. Por exemplo, se eu extrair uma célula do meu corpo, posso afirmar que esta célula está viva, assim como existem muitos seres vivos unicelulares. Matar esta célula certamente não representa dilema ético algum, uma vez que não há um “outro” a ser considerado.

Há uma coisa que todos concordamos ser intrinsecamente ruim: O sofrimento. A própria acepção da palavra implica nisto. Todo ser humano capaz de sentir dor e sofrer, reconhece o sofimento com algo negativo e tem, no seu alívio, algo mais importante e básico do que a busca pela felicidade (ou o “bom”). Sofrer é ruim. Sentir dor é ruim. Nós sabemos disso, não podemos negar. Logo, devemos extender esta noção a todos os seres que reconhecidamente sofram.

Ser “senciente” implica em sentir dor: possuir nociceptores, complexos sistemas nervosos, liberar opiatos em situações visíveis de sofrimento, enfim, todo um conjunto de potencialidades fisiológicas que preparam um ser para reagir a um estímulo externo ofensivo. Repare que todo este aparato não faz sentido às plantas: De que adianta sentir dor ao levar um chute se não se pode correr? É por isso que tudo isto é apenas comum à maioria dos animais (animais, animados, que se movem…) (humanos e não-humanos), que podem levar um chute, sofrer, reagir a este estímulo e fugir (claro, um tiro “limpo” não permite fuga).

O sofrimento animal não é uma ilusão dos terroristas vegetarianos que só querem prejudicar os nossos companheiros de viagem na Terra, mas sim um argumento factual.

O sofrimento animal não é uma ilusão dos terroristas vegetarianos que só querem prejudicar os nossos companheiros de viagem na Terra, mas sim um argumento factual, embasado em duas noções claras: A primeira é a de que não podemos ter certeza do sofrimento de ninguém, afinal não o sentimos, mas que podemos presumí-lo por semelhança de reação. Quando dou um pontapé em alguém, não sinto a dor deste, mas vejo, em sua reação, semelhanças na reaçao que eu teria numa situação semelhante. A pessoa grita, emite algum sinal de dor, retrai os músculos, se afasta ou apresenta sinais faciais de dor. Também podem ficar com hematomas na região contundida. Estes mesmo sinais se manifestam de forma muito semelhante em muitos animais. O segundo é um forte argumento científico. De acordo com Darwin, o ser humano não difere em natureza em relação aos outros animais, mas apenas em grau. Isto significa que, se sentimos dor, os animais também hão de sentí-la de forma e grau semelhante (pode ser até maior). Isto é verificado por modernos estudos científicos que provam que as mesmas estruturas nervosas responsáveis pelos estímos de dor que possuímos também são compartilhadas pela maioria dos animais, e por nenhuma planta.

Sendo os animais sencientes, e, reconhecendo que o sofrimento é ruim, podemos ir mais além e desconstruir outras noções especistas e antropocêntricas muito arraigadas em nossa cultura, as quais vou repassar rapidamente pois não são o tema central do artigo:

Os seres humanos são superiores: Errado. De acordo com Darwin, os seres humanos são apenas diferentes. Os seres humanos realmente são superiores em vários aspectos, como escrever livros, construir prédios, fazer guerras e bombas atômicas. Mas certamente são inferiores em visão noturna, olfato, paladar, audição, força, velocidade, voar, nadar, sobreviver a altas e baixas temperaturas, sobreviver à radiação ou mesmo de sobrevivência como um todo… De qualquer forma, a superioridade em nenhum destes pontos justificaria não levar em consideração o interesse dos outros animais. Aliás, muito pelo contrário: É prerrogativa do mais forte ter compaixão.

Os animais não são racionais: Errado. De acordo com a teoria de Darwin, os animais também pensam, mas de forma e em graus diferentes. Além disso, nem todos os seres humanos são racionais. Mesmo assim, não achamos correto comer bebês, nem caçar idosos senís. Julgar um ser pelo grupo que ele pertence e não por suas qualidades individuais é discriminação.

Os animais não se comunicam: Errado. Chimpanzés e gorilas são capazes de conversar utilizando linguagem de sinais. Golfinhos possuem nomes para se reconhecer. A grande maioria os animais possuem comunicação pré-verbal, assim como bebês.

Os animais não são pessoas: Errado. Animais são sencientes, têm famílias e possuem vidas biográficas. São pessoas! Ou vai dizer que seu cachorro é uma “coisa”?

Os animais foram feitos para nós: Talvez. Mas estes são “como os argumentos de fé religiosa, ou seja, não são discutíveis. São dogmas. O fanatismo que movimenta alguns religiosos é comparável ao que alimenta o terrorismo”.

A noção absurda de que “plantas sofrem” é atribuída comumente a livros pseudo-científicos como livros de Florais de Bach, e o livro “A vida secreta das plantas” de Peter Tompkins (que entre outras coisas, fala sobre aura, fotografia kirlian, magnetotropismo, orgônio e outras pseudo-ciências sem qualquer embasamento científico). O fato de plantas “responderem à estímulos” não significa de forma alguma que isso seja “ruim” a elas, afinal, ímãs e filmes fotográficos também reagem a estímulos externos e, nem por isso, chegamos à absurda conclusão de que estes sintam dor, sejam sencientes, ou que devamos qualquer obrigação moral direta para com estes. Portanto, quem recorre ao já famoso argumento das plantas não está sendo correto em relação ao que é o veganismo (provavelmente por ignorância), ou está utilizando argumentos pseudo-científicos sobre a biologia das plantas e dos animais.

Uma última colocação sobre este argumento é que, mesmo que plantas sofressem, não seria justificável caçar seres que temos a certeza que sofrem por isso. Um sofrimento não justificaria o outro. Fosse assim, todo sofrimento seria justificável, visto que neste mundo o sofrimento é parte e é inevitável. É ponto pacífico para qualquer pessoa que leve a sério a ética que não podemos justificar um sofrimento visível, próximo, evitável ou que nós mesmos causamos por um sofrimento hipotético, distante, inevitável ou causado por outrem. Caso contrário, não deveríamos nos preocupar com as crianças de rua do nosso bairro, já que não podemos evitar diretamente que milhares de outras crianças morram de HIV na África, ou poderíamos torturar e matar animais da nossa rua, já que muitos animais serão mortos por comida mesmo. Utilizar o argumento das plantas é uma tentativa fútil de se eximir de suas reponsabilidades morais para com os outros seres sencientes que conosco viajam na Terra, apelando ao absurdo.

E antes que seja questionado, outro argumento da caça apresentado pela autora é a questão das espécies introduzidas em regiões em que se tornam “problemas”, como o teiú em Fernando de Noronha, e os búfalos em Rondônia. A questão aqui é que o dilema moral apresentado é esquizofrênico, e é idêntico ao apresentado pelo autor Gary Francione em seu livro “Introduction to Animal Rights”.

No livro, é colocada a seguinte questão: um prédio está em chamas, e há um bebê e um cachorro. Qual deles você salva? A maioria das pessoas responderia que salvaria o bebê, seguindo o princípio de que, em casos de emergência, não está errado eticamente colocarmos os interesses da nossa espécie ou do nosso grupo na frente do outros grupo em questão. Da mesma forma, se houvesse dois bebês no dilema e um fosse seu filho, naturalmente você o salvaria. Mas repare: isto é aplicável em casos de emergência, onde os interesses em questão são da mesma intensidade. Criar, matar e comer seres sencientes, simplesmente pelo sabor certamente não se enquadra nesta categoria. O mesmo pode ser dito da vestimenta e do entretenimento que utilizam animais.

Mas repare que a questão apresentada possui um porém: por que o cachorro estava em um prédio? De quem é a culpa disso, afinal? Por que nos achamos no direito de colocar o animal nesta situação e depois optar por deixá-lo morrer? O erro ético deste dilema está em sua origem: o cachorro não deveria estar no prédio, assim como os búfalos não deveríam estar em Rondônia.

Nós introduzimos estes animais naquele ambiente e agora nós achamos correto nos divertir (afinal, é um esporte) dando tiros “limpos” nestes búfalos pois, como afirma a autora “eles estão infernizando a vida dos responsáveis pelo manejo da Reserva Biológica do Guaporé”. Vejam só: os nossos companheiros de viagem na Terra estão infernizando a nossa vida… Vamos matá-los e exibir (sem gritar) nossos troféus!

Acredito fortemente que a natureza e sua conservação são uma questão ética indireta, por sua beleza (que a meu ver supera qualquer museu com obras humanas) pela necessidade que temos (nós, animais) desta como provedora e principalmente pela obrigação moral que temos com as gerações futuras. Creio que os conservacionistas e os ambientalistas que colocam a natureza e os animais no mesmo “saco”, acreditando que todos estes são necessários apenas por estes valores indiretos que geram a nós humanos, e apóiam absurdos como a caça por estes motivos, se equivocam em não atribuir aos animais seu valor intrínseco e não respeitar a inviolabilidade sagrada de suas vidas.

Tenho a certeza que o ambientalismo pautado sobre esta visão especista não poderá resolver o problema maior da relação entre os seres humanos e mundo que o cerca, pois não ataca as suas causas e sim suas conseqüências, e está fadado ao insucesso. Apenas quando reconhecermos o “outro” é que teremos uma visão clara do que está em jogo e como devemos agir para manter nosso planeta rico, limpo, habitável e o melhor: sem sofrimento. Afinal, estamos a “ProteJer o quê?”.


Para finalizar, uma piada sobre a caça:

Estava um experiente caçador de leões nas savanas africanas, procurando uma presa. Distraiu-se por um momento, ouviu alguns passos e sentiu o bafo malcheiroso de um enorne leão bem em suas costas. Sem tempo de sacar a arma, começou a rezar:

“Senhor, sou um caçador ético, nunca lhe pedi nada e sempre fui à igreja. Peço a você apenas que este leão também seja um bom cristão assim como sempre fui.”

E uma luz fez-se no céu, em meio às nuvens de forma providencial a iluminar apenas ele, e o leão em suas costas. Sentiu que seu desejo tinha sido atendido. Levou um susto quando o leão começou falar:

“Obrigado senhor…”

Um leão falando! Era um milagre, ele estava salvo!

“… pelo pão nosso de cada dia. Amém.”




Sobre o autor

Maiz
Juan Maiz Lulkin Flores da Cunha
É graduando em filosofia pela UFRGS e membro do GAE/POA. É empresário, palestrante, consultor e instrutor na área de tecnologia da informação, com ênfase em tecnologias abertas e métodos ágeis.

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