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ARTIGO

A arte de largar a Bisteca: 15 perguntas e respostas para quem quer parar de comer carne


Dagomir Marquezi

O Brasil não exporta softwares, mas é a grande potência mundial da carne de frango.


Como você gostaria de ser comido?

Uma da manhã na capital gastronômica do Hemisfério Sul. Estou torto de fome. Pego o carro e vou ao tradicional Ponto Chic, um porto seguro na madrugada de São Paulo. Olho a lista de pratos do dia: “Filé… filé… feijoada… espeto… peito de frango… escalope… peixe à marechal… picadinho… bife grelhado. Frango assado. Peixe grelhado”.
- Garçon, por favor… Eu estou morrendo de fome, mas não como carne.
- Não come carne? A gente tem vários pratos com frango. Frango à passarinho, filé de frango à cubana…
- Eu não como nenhum tipo de carne. Nem frango.
- Então, eu posso oferecer pro senhor nosso filé de salmão, a gente tem também a minibacalhoada, ou também nosso atum ao forno…
- Peixe é carne.
O pobre está tentando manter o diálogo com o ser exótico à sua frente. Talvez ele não tenha noção, mas vegetarianos também necessitam de alimentos de tempos em tempos. Imploro:
- O senhor não tem nenhum prato que não tenha carne?
Ele pensa, pensa, pensa mais um pouco. E acha a solução:
- Já sei! A gente tem a omelete mista. Vai queijo, presunto, bacon…

Não estamos representados em centros econômicos mundiais por empresas de alta tecnologia, mas por restaurantes com nomes tipo “Rodeio” ou “Porcão”. Não temos revelado ao mundo muitos cientistas, mas marcamos presença com homens de avental, com um espeto numa mão e uma faca sangrenta na outra.

É preciso MUITA determinação para ser vegetariano no Brasil. Estou na pátria das churrascarias, que você encontra em cada quarteirão de qualquer cidade, por mais miserável que seja, com nomes de fundo meio sádico, como “Ao Boi Berrando” ou “Novilho no Espeto”. Não estamos representados em centros econômicos mundiais por empresas de alta tecnologia, mas por restaurantes com nomes tipo “Rodeio” ou “Porcão”. Não temos revelado ao mundo muitos cientistas, mas marcamos presença com homens de avental, com um espeto numa mão e uma faca sangrenta na outra. O Brasil não exporta softwares, mas é a grande potência mundial da carne de frango.

Nesse clima, como escapar da carne? Não quero aqui convencer ninguém a parar de ser carnívoro. Minha briga é para ter o direito de não comer carne. Faço parte de um grupo que cresce cada vez mais, um mercado que ganha espaço nos supermercados, que discretamente inaugura cada vez mais restaurantes. Sei que vou continuar sendo visto como um cara esquisito porque renunciei a um tipo de alimentação. Se sinto falta? Claro que sinto! Não sou cínico de dizer que sinto repulsa ao ver um sanduíche de lingüiça calabresa bem passada na porta do estádio. Por que renunciar à carne como alimentação? Vegetarianos têm a pele esverdeada? É verdade que são tão fracos que mal conseguem abrir a jarra de ban-chá? Vegetarianos conseguem ter ereção? Gostam de sexo? Se acham uma mulher nua no mato, é verdade que comem o mato? Para dar algumas respostas a essas e outras perguntas, preparei para a VIP este pequeno FAQ (Frequently Asked Questions, ou Perguntas Freqüentemente Respondidas) sobre os mistérios do vegetarianismo.

1. POR QUE NÃO COMER CARNE?

Cada um tem sua razão. Eu não como carne porque sei o que isso representa de sofrimento para os animais sacrificados. Tenho a consciência de que, “racional” ou não, sou tão animal quanto um frango ou uma sardinha. Não gostaria que eles fizessem comigo o que os humanos fazem com eles.

2. CARNE NÃO É FUNDAMENTAL PARA A SAÚDE?

Seu médico pode dizer isso. “Pesquisas científicas” também. Existem pesquisas aos montes, aliás provando que carne é o melhor gatilho para doenças cardiovasculares e a porta de entrada para muitos tipos de câncer. Acredite na pesquisa que quiser, mas renda-se aos fatos: milhões e milhões de pessoas pelo mundo não comem carne e vivem em perfeita saúde. (Eu cortei qualquer carne do meu cardápio há um ano e nove meses, e os resultados dos check-ups estão cada vez melhores.) Desde que você use o bom senso e o equilíbrio, a carne não é nem nunca foi obrigatória na dieta de ninguém. Se o seu médico afirma isso, procure uma segunda opinião.

3. VEGETARIANOS SÃO ESVERDEADOS E FALAM MOLE?

Há 50 anos, velhos hippies achavam que podiam sobreviver com doses maciças de alface e arroz integral. Ficaram esverdeados e falando mole. Faltavam a eles proteínas. E proteínas não são monopólio da carne. Você encontra proteínas em soja, leguminosas, frutas, arroz integral, grão-de-bico…

4. VEGETARIANOS TREPAM?

Dizer que carne vermelha aumenta a virilidade do homem é um dos golpes mais baixos da indústria frigorífica. Fala sério. (De novo, a experiência pessoal: a modéstia me impede de descrever como anda minha saúde sexual aos 53 anos de idade.) A verdade é que sobram pesquisas encomendadas para provar os supostos benefícios da carne. Mas parece não existir muito interesse em perguntar às mulheres de vegetarianos se elas andam satisfeitas com seus parceiros.

5. OS ANIMAIS SOFREM TANTO ASSIM?

Sofrem muito mais do que você pode imaginar. A lógica da indústria frigorífica transforma animais vivos e conscientes em simples mercadoria, tratados como se não sentissem dor. Isso, na indústria. Mas a maior parte do mercado de carne do Brasil é abastecido por abatedores clandestinos, de onde não se saiu ainda da Idade Média, e cavalos são pendurados vivos com as patas cortadas para sangrar.

6. MAS OS ANIMAIS NÃO ESTÃO POR AÍ PARA NOS SERVIR MESMO?

Essa é uma questão muito íntima e profunda. Cada um tem sua consciência. Mas não adianta tratar seu cachorrinho com beijos, dizer que “adora animais” e depois ir comer um baby beef ou um foie gras.

7. QUAL O PROBLEMA COM BABY BEEF E FOIE GRAS?

São dois pratos especialmente marcados pela crueldade. O baby beef (e a vitela) vem de um bezerro que é separado da mãe assim que nasce. Ele vive alguns poucos meses num caixote escuro de cimento, sem chance de se mover, e em seguida é abatido. Para produzir o foie gras, gansos são presos, e grandes quantidades de comida são forçadas pelas suas gargantas com um pilão. O foie gras é a pasta de fígados inchados e apodrecidos ainda em vida. Orientais sãos mestres em “pratos cruéis”. Japoneses servem peixes ainda vivos, pulando no seu prato. Chineses torturam cães até a morte para que suas carnes fiquem “macias”.

8. TÁ LEGAL. CAPTEI A MENSAGEM. EU QUERO FAZER ALGUMA COISA A RESPEITO. E SE EU NÃO CONSEGUIR CORTAR TODA A CARNE DE MINHA DIETA AMANHÃ?

Existem muitas gradações para quem quiser tomar uma atitude. Você pode começar banindo já esses “pratos cruéis”. E não ampliando o consumo de espécies. (Apesar das campanhas geralmente inúteis para que você coma “carnes exóticas”, como as de avestruz e jacaré.) Em seguida, você pode ir cortando: primeiro a carne de porco, depois a carne vermelha, depois o frango, em seguida o peixe. (Eu, por exemplo, ainda estou na categoria dos lacto-ovo-vegetarianos. Na hora do aperto, apelo para uma omelete de queijo na boa.)

A Amazônia está sendo destruída para que a floresta vire o pasto dos bois que vão virar seu filé. Queimamos quase um Sergipe por ano para manter uma fartura artificial de carne.

9. E SE BATER AQUELA SAUDADE DAS VELHAS DELÍCIAS?

Aí é preciso lembrar que só uma parte dessas delícias é a carne em si. Elas incluem molhos, acompanhamentos, ingredientes que fazem o resto do show. Se você encarar uma feijoada vegetariana, vai ver que está quase tudo lá: o arroz, a couve, a farofa, o molho apimentado, o feijão preto, a caipirinha. No lugar das lingüiças e paios, está a santa soja. É a mesma coisa? Claro que não. Por um lado, é menos saboroso. Por outro lado, muito mais saudável.

10. COMER CARNE PREJUDICA SÓ OS ANIMAIS?

Não. A Amazônia está sendo destruída para que a floresta vire o pasto dos bois que vão virar seu filé. Queimamos quase um Sergipe por ano para manter uma fartura artificial de carne. Se você não se importa com isso, bom apetite.

11. EXISTE JUNK FOOD VEGETARIANA?

Sim, com a diferença que não é junky. Faz bem à saúde. Se existem dois produtos que “enganam” bem, são as salsichas e os hambúrgueres à base de soja. Um cachorro-quente com salsicha vegetal fica realmente parecido com o “normal”. Depende de como você faz. Em noites de tentação junky, eu peço um sanduíche duplo de hambúrguer (de soja) com queijo, alface, cebola, tomate, maionese e ainda mando ver no ketchup e na mostarda enquanto traço umas fritas. Daí encomendo meu colegial de chocolate para depois. Que diferença real faz do que eu comia no balcão do BurDog quando era carnívoro?

12. É FÁCIL ENCONTRAR RESTAURANTES VEGETARIANOS?

De jeito nenhum! Mesmo em cidades como Rio e São Paulo, eles são raros. Para piorar, geralmente só abrem no almoço. É como se vegetarianos não jantassem. Uma lista de opções pode ser encontrada no site Sitio Vegetariano (www.vegetarianismo.com.br). Se estiver com muita fome de noite, vá a uma churrascaria! Ela costuma oferecer grandes mesas de saladas, fora os acompanhamentos.

13. EXISTEM VEGETARIANOS FAMOSOS OU SÃO TODOS ANÔNIMOS ESCONDIDOS?

No Brasil, temos alguns exemplos conhecidos: Lobão, Rita Lee, Éder Jofre, Lucélia Santos, Patrícia Travassos, Fernanda Lima. Fora daqui: Anthony Kiedis (do Chili Peppers), Chrissie Hynde, Billy Idol, Bob Dylan, Brandi, Desiree, Eddie Vedder (do Pearl Jam), Elvis Costelo, Erykah Badu, Janet Jackson, Paul McCartney, Seal, Ziggy Marley, Fiona Apple, o DJ Moby, Shania Twain, Jeff Beck, Brian May (do Queen), Pink, Justin Timberlake, Steve Vai, Kim Basinger, Penelope Cruz, William Dafoe, David Duchovny, Jorja Fox, Woody Harrelson, Natalie Imbruglia, Tobey Maguire, Natalie Portman, Reese Whiterspoon, Pamela Anderson. Você ainda é capaz de imaginar vegetarianos como um bando de anêmicos sem saúde vendo uma foto de Pamela Anderson?

14. O VEGETARIANISMO É UM FENÔMENO RECENTE?

Pitágoras era vegetariano no século 6 antes de Cristo. Sócrates também, Platão, Leonardo da Vinci, León Tolstoy, Albert Einstein. (E os carnívoros são então “mais espertos”?)

15. SER VEGETARIANO É UMA GARANTIA DE SANTIDADE?

Charles Manson era vegetariano. Adolf Hitler também. Respondido?

(publicado na Revista VIP)

Nota do site do GAE: O nome do Lobão foi riscado, pois como se sabe ele não é vegetariano. Hoje, poderíamos botar no lugar dele João Gordo.




Sobre o autor

Dagomir
Dagomir Marquezi
É escritor, roteirista e jornalista. Escreveu para praticamente em todos os grandes veículos brasileiros (Veja, IstoÉ, Exame, Época, Placar, VIP, Playboy, Super, Estadão, SBT, Bandeirantes, Glo...), com ênfase em cultura, cinema na ecologia e nos Direitos Animais. Escreveu a novela Um Sonho a Mais.

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