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ARTIGO

Manifesto pelo Abolicionismo Radical: Libertação Total Por Qualquer Meio Necessário


Steven Best

"Como os cristãos fundamentalistas, Francione e seus seguidores acreditam que possuem a Verdade enquanto todos os outros se debatem no erro..."


Tradução: Mauro Cavalcanti.
Publicado originalmente em: www.negotiationisover.com .

O movimento de defesa dos animais não-humanos está numa encruzilhada decisiva, onde agora realmente é fazer ou morrer. No início de 1980, um novo movimento de direitos dos animais brilhava com potencialidades; em poucos anos, porém, a luz se apagou, a medida que a corrupção, o oportunismo e a burocracia ceifaram a promessa de mudança genuína. À medida que evoluíram, tornou-se cada vez mais evidente que o People for the Ethical Treatment of Animals (PETA) e outros grupos emularam a Humane Society of the United States (HSUS) para se tornarem gigantes corporativos e máquinas dominantes. Cada vez mais cooptados e comprometidos, grupos de direitos dos animais freqüentemente trabalhado com, e não contra, as indústrias de exploração, a fim de regular, não eliminar, o holocausto em curso dos animais não-humanos.

Na última década, por exemplo, o PETA pressionou McDonalds, Burger King e KFC para aumentar o tamanho das gaiolas e adotar métodos de abate “menos cruéis, mais rentáveis” 1, enquanto a HSUS fez agressiva campanha por “carne humanitária” e “ovos livres de gaiola”. Esses grupos, em última instância servem os interesses dos exploradores das empresas e defendem princípios capitalistas em geral. Mas, enquanto o PETA começou como uma organização de base em 1980, e continua a defender a Animal Liberation Front (ALF) e promover o veganismo, a HSUS foi um grupo beneficente burocrático desde a sua criação em 1954, consistentemente denuncia a ALF, e sempre capitulou à cultura carnívora na medida em que mal dá apoio até mesmo para o vegetarianismo.

A fim de que ninguém, quer no campo da indústria ou da advocacia, tivesse dúvidas, o Presidente e CEO da HSUS Wayne Pacelle tranqüilizou a todos em uma bajuladora entrevista em julho 2009 na rádio Agritalk. Pacelle praticamente se desculpou por ser veganista em sua vida privada e assegurou às indústrias de carne, vivissecção, caça, zoológicos e circos que não tinham nada a temer da HSUS, uma vez que seu objetivo é promover a “decência e misericórdia para com os animais” e não encerrar suas operações. 2

II.

Em resposta direta ao reformismo e oportunismo miserável do assistencialismo burocrático, um novo movimento surgiu para reconstruir a defesa dos animais não-humanos de forma inequívoca como uma luta pelos direitos dos animais, e não pelo “bem-estar”; pela abolição total da escravidão dos animais não-humanos, em vez de sua regulamentação; e pelo veganismo, não por produtos “humanitários” derivados de animais de qualquer tipo. Em um grau significativo, o novo movimento abolicionista vegano foi moldado e definido pelo trabalho de Gary Francione, professor de Direito da Universidade Rutgers. A partir de meados da década de 1990, Francione expôs a duplicidade dos “novos welfaristas” que usam o termo “direitos dos animais”, mas perseguem políticas “assistencialistas”. Essas políticas, Francione argumenta, são incoerentes e diluem o significado dos direitos; o “assistencialismo”, sob qualquer forma, ele insiste, trabalha para o benefício das indústrias e, portanto, aumenta, ao invés de diminuir, a demanda por produtos de origem animal, que só agrava, e não alivia, o especismo e o sofrimento dos animais não-humanos em horríveis sistemas de exploração.

Francione aproveitou e mobilizou a crescente insatisfação com o reformismo corporativo e provocou um crescente movimento abolicionista vegano. Mais precisamente, ele reviveu um movimento veganista originalmente criado por Donald Watson em 1944 e sustentado pelas sociedades veganas, como no Reino Unido e nos EUA. Estas sociedades mantiveram a visão ampla e política de Watson do veganismo não apenas como uma dieta, mas sim como um compromisso ético e político para a abolição da exploração dos animais não-humanos e, na verdade, de todos os sistemas de opressão. 3 Francione aderiu aos ideais pacifistas do antigo Jainismo, ao ponto de vista vegano de Watson e à filosofia dos direitos dos animais originalmente desenvolvida sistematicamente em 1983 por Tom Regan, mesclando essas influências em uma nova matriz do abolicionismo vegano pacifista.

Francione normalmente fala como se ele tivesse inventado o veganismo, e seguidores bajuladores como Roger Yates alegam que um autêntico “movimento pelos direitos dos animais” só começou em 2006 com a influência ascendente do trabalho de Francione. 4 Mas Francione quase sempre retornou aos ensinamentos originais de Watson, embora muitas vezes de uma forma diluída que mantém a visão ética que liga as escolhas alimentares aos compromissos morais para com os animais não-humanos oprimidos, mas sem um compromisso político coerente para trabalhar contra todas as formas de opressão e exploração. Abordagens abolicionistas ao especismo começaram dentro das feministas anti-vivissecionistas do século XIX, foram aprofundadas por Watson e as emergentes sociedades veganas, informaram os movimentos de sabotadores da caça no Reino Unido a partir da década de 1960 até o presente, e foram desenvolvidas de formas historicamente importantes em 1976, quando Ronnie Lee fundou a Animal Liberation Front.

Embora Francione tenha desenvolvido uma crítica vigorosa do “assistencialismo” e levado a filosofia dos direitos dos animais a um novo nível, ele não obstante mostrou-se desprovido de visão política e incapaz de forjar um verdadeiro movimento de resistência que possa evoluir para além da posição marginalizada atualmente abraçada por menos de um por cento da população humana. Na interpretação religiosa, tépida e apolítica de Francione, o abolicionismo veganista continua a ser um estilo de vida elitista, branco, consumista, eurocêntrico, facilmente cooptado pelo capitalismo e ideologias dominantes. Além disso, Francione gerou uma espécie de culto de seguidores – os “Franciombes” – que imitam suas posições fundamentalistas rígidas, belicosas e maniqueístas; com devoção servil ao seu Mestre e à sua maneira hostil, os Franciombes difamam seus críticos em um estilo mais adequado a Maquiavel que aos jainistas.

III.

O Guru e seus discípulos se reúnem em uma dança de doutrina e dogma. Como os cristãos fundamentalistas, Francione e seus seguidores acreditam que possuem a Verdade enquanto todos os outros se debatem no erro. Como Francione argumenta, literalmente, não há “nenhuma alternativa”, apenas o caos e a ruína, exceto por sua abordagem baseada na obediência à lei, na educação pacífica e no foco em pessoas e hábitos de consumo sobre as instituições e os imperativos produtivos decorrentes do capitalismo global. Para eles, o mundo é preto e branco, as respostas são curtas e secas, e a complexidade é reduzida ao leito Procusteano do isto ou aquilo, mais do que animada pela lógica dialética de ambas as coisas.

De acordo com a linha do partido pacifista, táticas de ação direta de militantes como a sabotagem econômica estão SEMPRE erradas e NUNCA são eficazes. Dispensando-se do trabalho de analisar as complexidades e as situações específicas únicas, os Franciombes modelam uma cômoda “verdade” a priori e aplicam-na mecanicamente a cada ação que já aconteceu ou vai acontecer. Sua ignorância da história é comparável apenas à sua rigidez mental. Por mais de três décadas, em dezenas de países em todo o mundo, em incontáveis milhares de ações, libertadores e sabotadores libertaram centenas de milhares de animais não-humanos em cativeiro; derrubaram permanentemente inúmeros reprodutores, “criadores de peles” e vivisseccionistas; e convenceram um número incontável de indivíduos a encontrar um emprego remunerado em outras carreiras que não a exploração dos animais não-humanos, ao mesmo tempo inspirando as pessoas a nível mundial a aderir ao movimento de libertação animal.

Em tudo isso, os Franciombes não vêem nenhum valor ou ganho e, apesar das operações fechadas para sempre, eles só podem repetir a alegação infundada de que todos os bens danificados são reconstruídos e todos os animais não-humanos libertados são “substituídos.” Isso pode acontecer em alguns casos, mas à luz das muitas operações fechadas definitivamente, esta é claramente uma falsa afirmação; mesmo quando os animais são substituídos e as propriedades são reconstruídas e restauradas, os crescentes custos dos seguros são suficientes para enfraquecer e comprometer a viabilidade das operações de pequeno e médio porte, pelo menos. Enquanto os pacifistas dogmáticos escondem-se sob a capa da ignorância e negação, as próprias empresas exploradoras comprovam a eficácia das ações da ALF. 5

Difamando as táticas de sabotagem como “violentas” e combinando ataques à propriedade com ataques a pessoas, os Franciombes adotam o discurso e a posição reacionários do FBI e do complexo corporações-Estado-mídia. Eles desnecessária e divisivamente contrapõem a educação em oposição às táticas ilegais (inclusive resgates abertos), como se as duas táticas fossem irremediavelmente contrárias ao invés de aspectos complementares de um processo revolucionário.

Apesar de alguma conversa sobre capitalismo, concordância de opressão e política de alianças, Francione finalmente empurra uma abordagem simplista única, “torne-se veganista”, direcionada a uma audiência de brancos, ricos, privilegiados, ocidentais, sem intenção de envolver as pessoas de cor, famílias da classe trabalhadora, os pobres, ou a China e a Índia – os países mais populosos do mundo, agora em transição acelerada da manutenção de tradicionais dietas à base de plantas para abraçar dietas ocidentais enraizadas no consumo de “produtos de origem animal”, incluindo carne, leite e ovos.

Francione, assim, reforça os funestos estigmas elitistas, classistas e racistas ligados aos ativistas dos animais não-humanos desde o início do “protecionismo animal” no início do século XIX, e ainda isola o veganismo e os direitos dos animais dos movimentos progressistas e das principais correntes sociais. Incapaz de articular uma teoria estrutural de opressão, exploração e hegemonia ideológica, e atolada em dualismos ocidentais e na construção de falsas oposições, como entre produção/consumo, individual/social e psicológico/institucional, Francione absolve a lógica e o maquinário do capitalismo global para colocar todo o peso da culpa e da responsabilidade nos consumidores individuais.

Certamente, os seres humanos precisam assumir a responsabilidade de transformar suas vidas pessoais, como por exemplo assumindo o imperativo ecológico e ético para tornar-se veganista. Mas, politica e pedagogicamente, é também crucial para os cidadãos reconhecer o formidável poder das forças estruturais em suas vidas e as maneiras pelas quais instituições políticas e econômicas sedimentadas colocam profundos obstáculos ao ensino, aprendizagem e mudanças éticas e sociais progressistas. Mudança psicológica e ética é uma condição necessária mas não suficiente às transformações sociais em grande escala necessárias para a criação de culturas democráticas e ecológicas viáveis.

Internalizando a ideologia capitalista do individualismo liberal, este pseudo-abolicionista nada oferece, exceto o mais banal e tépido reformismo que não é mais eficaz na mudança das relações sociais de dominação global do que é o “assistencialismo” para quebrar as cadeias da opressão especista. Ao invés de avançar na formulação de Watson, Francione oferece uma versão regressiva e vazia de um rico ideal ético e político que se opõe a todas as formas de exploração e de hierarquia.

IV.

Os Franciombes eliminam a complexidade e ambiguidade do quadro político-social, e exalam arrogância, dogmatismo e condescendência. Agarram-se à convicção religiosa de que qualquer abordagem ao veganismo, direitos dos animais ou abolicionismo, além da que Francione gravou na pedra, é falsa, reacionária e “welfarista.” Eles promiscuamente desdobram a frase “novo assistencialista” para desacreditar os outros no movimento, tal como os macartistas lançaram o epíteto de “comunista” e os patriotas pós-9/11 aterrorizaram com o discurso de “terrorismo” para desacreditar seus oponentes como extremistas irracionais.

Com efeito, à moda macarthista, após receber supostas ameaças de morte dos que apóiam o confronto ou a ação direta ilegal, Francione fez acusações irresponsáveis e deu os nomes de qualquer pessoa (incluindo pacifistas confessos) remotamente ligada a uma tal tortuosa conspiração terrorista. Além disso, Francione rotineiramente rotula seus adversários de “loucos” ou “insanos”, como se o desacordo com seus ensinamentos divinos fossem evidências de deficiência psicológica. Ele está aparentemente alheio às implicações normalizantes e ableístas de usar dicotomias cruas de sano/insano e racional/irracional.

Incapazes de compreender as causas da dominação hierárquica e da crise ecológica, responsabilizando os indivíduos sobre as instituições, Francione está mal posicionado para compreender a natureza dos problemas que afligem os outros animais e o planeta e muito menos para oferecer soluções potenciais e táticas viáveis. E assim nada temos além da irremediavelmente vaga, pseudo-panacéia liberal da “educação veganista.” Aparentemente limitados aos blogs e podcasting do grupo, Francione & seguidores são despojados da política e, de fato, carecem até mesmo dos elementos mais rudimentares de uma teoria e prática da educação – mais do que um pequeno problema para uma abordagem que busca a mudança através da educação veganista. Sua visão é totalmente delirante, na convicção de que o veganismo é o principal veículo e catalisador para a iluminação individual e, conseqüentemente, para a mudança social. Estes pacifistas pugilísticos agarram-se a uma fé como a cristã de que de alguma forma, algum dia, suas polêmicas insulares e frágeis esforços de “educação” irão transformar o coração e a alma da humanidade e, assim, mudar a sociedade como um todo. Alheio ao limite que estamos prestes a cruzar, eles promovem a lenta mudança incremental, em meio a um rápido colapso ecológico sistêmico.

Incrivelmente, a medida que as crises ecológicas e sociais globais crescem rapidamente, Francione ignora os eventos mais importantes do dia – a superpopulação humana, a crise de extinção de espécies, o desmatamento, as mudanças climáticas globais e o destrutivo imperativo do crescimento inerente à economia capitalista. O modelo da teoria do caos que os Franciombes usam para reforçar sua alucinação coletiva de uma “revolução veganista” é muito mais aplicável ao crescimento exponencial do consumo de carne na China e na Índia. Para cada pessoa que se torna vegetariana, mil comedores de carne surgem rapidamente nestas sociedades industrializadas e em outros lugares como o Brasil e a África do Sul. A preocupação dos Franciombes com a “substituição” dos animais não-humanos libertados parece iludi-los, na medida em que ela se aplica à sua própria abordagem única, a qual não percebe que, para cada veganista convertido que comemoram, exércitos de necrófagos continuamente nascem e crescem.

A abordagem de Francione é complacente, distante da realidade e irrelevante para a enorme e complexa luta necessária para evitar o colapso biológico e a catástrofe ecológica. O veganismo ao estilo de vida pacifista é outro beco sem saída e infundada esperança, totalmente inadequado para o desafio sem precedentes de um planeta em crise. Se anteriormente foi progressista, a abordagem de Francione é agora claramente reacionária. É um movimento pseudo-abolicionista, veganismo ao estilo de vida burguês; é uma construção unidimensional, de questão única, eurocêntrica, branca, elitista, consumista, capitalista, que veganistas e abolicionistas precisam abandonar rapidamente.

Onde os Franciombes procuram a abolição como marca registrada e insultam como mero “assistencialismo” qualquer visão além da sua própria, este grupo pretende explodir as portas de sua teologia cultista a fim de revigorar o pensamento, restaurar o bom senso, situar o veganismo em seu contexto político mais amplo, e revitalizar as possibilidades de mudança revolucionária. Nossas opções não se limitam nem ao “assistencialismo” da HSUS ou ao pseudo-abolicionismo e ao veganismo de estilo de vida de Francione. Existem outras formas, como a história revela e o futuro exige.

V.

Precisamos de um conceito muito mais rico e mais radical do abolicionismo, que extrai e revitaliza a força e o poder do movimento anti-escravidão humana que eclodiu nos EUA no século XIX (e, é claro, mais cedo no Reino Unido). Diferentemente da imitação pálida e da caricatura defendida pelos Franciombes, a versão do abolicionismo que nós defendemos está muito mais em sintonia com o radicalismo, o pluralismo e a política de alianças (imperfeita e impermanente como ela foi) do abolicionismo do século XIX. Mas abstendo-se de nostalgia e modelos políticos obsoletos, esta abordagem também se identifica com numerosas outras teorias e movimentos políticos contemporâneos. Reconhecemos a necessidade de mudança social radical e entendemos que a luta contra o especismo, o capitalismo, o Estado e a hierarquia em todas as formas será travada em várias frentes, simultaneamente. Procuramos revigorar um movimento esgotado por oportunistas corporativos e paralisado por pacifistas que simpatizam com a “humanidade” latente dos opressores e demonizam o ala militante da libertação animal, uma perversa inversão de lealdades e sentimentos equivocados manifestado na Síndrome de Estocolmo evidente na mentalidade dos pacifistas fundamentalistas. 6

Não podemos parar a guerra especista e corporativa contra os animais não-humanos e o planeta apenas com blogs, panfletagem, tablóides e livros de receitas. O capitalismo é inerentemente destrutivo, e a mudança nunca virá somente através da educação e persuasão, sem nenhum movimento mais poderoso do que os agentes e instituições de destruição omnicidas. Como o radical teórico da pedagogia Paulo Freire insistiu – a educação só pode fazer parte de um movimento mais amplo e multi-eixos de resistência, luta e mudança. Assim, como todas as revoluções anteriores, os animais humanos e não-humanos não vão ganhar a libertação porque os opressores de repente vêem a luz, mas sim porque as pessoas tornam-se suficientemente esclarecidas e aprendem como sacudir as estruturas do poder e agitá-las até que surjam novos arranjos sociais.

Não é só o conteúdo das posições de Francione que nós desafiamos, mas também a própria forma e o método de sua abordagem. Não podemos progredir na luta pela libertação ou termos a esperança de sermos politicamente relevante, a menos que troquemos a lógica dualista do isso ou aquilo de Francione por uma dialética de ambas as coisas, que abandona todas as dicotomias simuladas e falsas separações. Assim, precisamos de educação e de agitação, táticas de correntes acadêmicas e de militantes, resistência pacífica, confronto e sabotagem, meios abertos/legais e meios clandestinos/ilegais para enfraquecer o capitalismo especista.

Precisamos de mais, não menos, educação veganista, de um tipo que rompe os enclaves de privilégio branco em que os Franciombes enterraram o abolicionismo e alcança os pobres, as classes trabalhadoras, o interior das cidades, as nações menos industrializadas, e, fundamentalmente, os focos de crise emergentes nos gigantes demográficos da China e da Índia. E, apesar de uma de suas mais persistentes e insípidas falsas opções impostas, aqueles que trabalham na clandestinidade para libertar os animais não-humanos através de ataques podem e realmente resgatam outros animais de “abrigos”.

Embora apoiemos a Animal Liberation Front e a Earth Liberation Front, e defendamos a importância da sabotagem econômica, também reconhecemos que a destruição de propriedade é apenas uma retaguarda e um meio menor de resistência que tem de ceder a um amplo movimento social. Ainda assim, permanece um importante – às vezes aparentemente o único – meio de resistência contra o sistema de propriedade capitalista, e merece apoio a medida que nós trabalhamos simultaneamente para a construção de alianças políticas em uma escala global e de uma forma ampla e inclusiva sem precedentes.

A abordagem pluralista e contextualista central para nossa posição absorve o valor parcial e a validade do abolicionismo veganista, mas sem o dogmatismo debilitante e a rejeição incapacitante da tática eficaz simplesmente porque eles não se conformam com um código antigo ou utopia que só serve para reforçar a opressão e tranqüilizar os opressores não têm nada a temer de um movimento de “oposição”. 7 Ele abandona o fetichismo da questão única e a complacência de classe e de privilégio racial em favor da diversidade, da solidariedade e da construção de pontes com os mais desfavorecidos economicamente e politicamente marginalizados. Só desta forma, pode a profunda importância do veganismo e dos direitos dos animais ser reconhecida e respeitada pela maioria social; apenas em aliança com outras lutas revolucionárias seu potencial pode ser realizado.

Na forma de estilo de vida consumista e privatizada promovida pelos Franciombes, no entanto, o veganismo é o ópio do povo, e a polêmica de Murray Bookchin contra o “estilo de vida anarquista” apolítico pode ser proveitosamente aplicada ao vaporoso veganismo de estilo de vida defendido por Franciombes e outros. 8

Apoiamos uma forma de abolição que (1) defende o uso de táticas de ação direta de alta pressão, junto com invasões ilegais, resgate e ataques de sabotagem; (2) vê o capitalismo como um sistema intrinsecamente irracional, explorador e destrutivo, e vê o Estado como um instrumento de corrupção, cuja função é promover os interesses econômicos e militares do sistema de dominação corporativo e de reprimir a oposição à sua agenda; (3) tem uma compreensão ampla e crítica de como as diferentes formas de opressão estão interligados, vendo o animal humano, os animais não-humanos e a libertação da Terra como projetos inseparáveis; e, portanto, (4) promove uma política anti-capitalista de alianças com outros movimentos de direitos, justiça e libertação que compartilham o objetivo comum de desmantelamento de todos os sistemas de dominação hierárquica e reconstrução de sociedades por processos de descentralização e democratização.9

VI.

Formamos este novo grupo a partir da necessidade de uma abordagem social radical do veganismo e dos direitos dos animais que transcende o liberalismo burguês; a necessidade de uma esquerda mundial que renuncia ao especismo e todos os outros antigos e persistentes preconceitos e formas de opressão; a necessidade de visões pós-hierárquicas e sociedades democráticas e ecológicas; e a necessidade de libertação total e transformação revolucionária.

Esqueça Francione …

Temos de ligar a libertação dos outros animais à libertação humana e da Terra, e construir um movimento revolucionário forte o suficiente para vencer a hegemonia capitalista e refazer a sociedade sem os esmagadores imãs do antropocentrismo, especismo, patriarcado, racismo, classismo, estatismo, heterossexismo, ableísmo, e todas as outras formas perniciosas de dominação hierárquica. A humanidade pode não ter sucesso nessa empreitada, mas devemos empreendê-la. Já não é a escolha clássica entre “revolução ou barbárie”, mas agora entre revolução ou colapso ecológico e extinção em massa.

Nós temos dois objetivos. Em primeiro lugar, pretendemos expor as falhas fatais na abordagem de Francione e fornecer uma alternativa positiva para a sua forma apolítica, unidimensional e de questão única de abolicionismo. Esta abordagem proporciona maior abertura, diversidade e flexibilidade tática em contraste com as dogmáticas e artificialmente limitadas opções que Francione deixa para a sua abordagem pacifista extrema. Uma vez que este modelo alternativo é mais rico, multidimensional, e muito mais político, abre-se a uma política de alianças com outras causas e grupos progressistas e radicais.

E, assim como promovemos a política de alianças, é fundamental encontrar formas de construir pontes e formar concordâncias. E assim a nossa segunda e bastante modesta meta, é simplesmente abrir um espaço para novas formas de pensamento e de luta que giram em torno do ideal de libertação total e uma nova ética e política que transcenda o humanismo – amplamente definido – e abranja todos os seres sensíveis e o mundo natural. Devemos, em primeiro lugar, forjar canais de comunicação para ligar comunidades veganistas e de libertação de animais não-humanos com as comunidades de libertação dos animais humanos e do meio ambiente, o que representa uma política para o século 21. Neste esforço, esperamos tornar este local e outros possíveis um depósito rico de informações e um meio valioso para a discussão e o debate.

Estendemos a mão para todos e quaisquer pessoas de qualquer dessas comunidades para contribuir para este esforço crucial. Claramente, este amplo espectro do pensamento e da política não vai concordar em todos os pontos, mas é mais importante centrar a atenção sobre as semelhanças e preocupações comuns, tais como surgem do impacto devastador do capitalismo nos mundos social, sensível e natural, com preocupações mútuas de paz, justiça, igualdade, democracia, direitos, autonomia e ecologia.

Notas

1 Para uma visão da abordagem do PETA, ver “The Case for Controlled-Atmosphere Killing” ( peta.org/cak/ ).

2 Para uma transcrição da entrevista ver: http://www.cattlenetwork.com/Content.asp?contentid=327066 .

3 Para o ensaio seminal de Watson de 1944 argumentando por uma concepção global e ética do veganismo ver: http://www.ukveggie.com/vegan_news/vegan_news_1.pdf .

4 Roger Yates, “Three Years Young” (http://human-nonhuman.blogspot.com/2008/12/three-years-young.html).
5 Susan Paris, presidente da frente do grupo de indústrias de vivissecção Americans for Medical Progress, por exemplo, admite que a ALF teve grande impacto sobre os vivisseccionistas, escrevendo, “Devido a atos terroristas de ativistas pelos direitos dos animais como Coronado, projectos de pesquisa cruciais foram retardados ou descartados. Cada vez más, os escassos dólares disponíveis para pesquisa são gastos em segurança reforçada e altas taxas de seguros. Promissores jovens cientistas rejeitam carreiras de pesquisa. Investigadores de primeira categoria saem do campo”. Além disso, um relatório de agosto de 1993 ao Congresso sobre Animal Enterprise Terrorism descreve a eficácia das tácticas da ALF: “Onde os efeitos diretos, colaterais e indiretos de incidentes como este se fatoram juntos, a ALF professa táticas de sabotagem econômica que podem ser consideradas bem sucedidas e seus objetivos, ao menos com relação à instalação atacada, realizados.” Ambas as citações se encontram em: http://www.animalliberationfront.com/ALFront/ALFPrime.htm.
6 Para um vívido e grotesco exemplo da Síndrome de Estocolmo e da internalização do superego capitalista, ver o grosseiro ataque de Lee Hall a MDA em sua arenga auto- publicada Capers in the Churchyard: Animal Rights Advocacy in the Age of Terror (2006). Para uma dissecção crítica das múltiplas falácias, erros e sabedoria abismal informando este tratado de propaganda pacifista (que poderia ser facilmente confundido com um ataque político de um grupo da frente de indústrias de vivissecção ou do FBI), ver os ensaios de Best e Miller listados na nota 7. Ver também as devastadoras críticas de ativistas do Reino Unido profundamente implicados nas campanhas que Hall distorceu e denunciou: Steven Best, Jason Miller, Joan Court, Janet Tomlinson, and Lynn Sawyer, “Presence of Malice: UK Activists Vs. Lee Hall” (http://thomaspainescorner.wordpress.com/2009/03/23/presence-of-malice-uk-activists-v-lee-hall/),Alison Banville, “Lee Hall: Unplugged and Unmasked” (http://thomaspainescorner.wordpress.com/2009/09/10/lee-hall-unplugged-and-unmasked/); y Lynn Sawyer, “On the Practice of Pluralism: A Response to Lee Hall and the London Vegan Festival Controversy” (em breve).

7 Sobre a importância do método pluralista e contextualista, ver Steven Best e Jason Miller, “Pacifism or Animals: Which Do You Love More? A Critique of Lee Hall, Friends of Animals, and the Franciombe Effect in the New Abolitionist Movement” (http://thomaspainescorner.wordpress.com/2009/02/07/pacifism-or-animals-which-do-you-love-more/), e “Averting the China Syndrome: Response to Our Critics and the Devotees of Fundamentalist Pacifism” (http://thomaspainescorner.wordpress.com/2009/02/24/averting-the-china-syndrome-response-to-our-critics-and-the-devotees-of-fundamentalist-pacifism/).

8 Ver Murray Bookchin, “Social Anarchism or Lifestyle Anarchism: An Unbridgeable Chasm” (http://dwardmac.pitzer.edu/ANARCHIST_ARCHIVES/bookchin/soclife..html).

9 Sobre alianças políticas em um marco de revolucção total, ver a Introdução em Steven Best e Anthony J. Nocella II (eds.), Igniting a Revolution: Voices in Defense of the Earth (2006, AK Press).

Para ingressar em nossa rede estendida no Facebook:

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Stevenbest
Steven Best
Ativista norte-americano dos direitos animais e professor na Universidade do Texas.

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