GRUPO PELA ABOLIÇÃO DO ESPECISMO
Por uma razão assim, isto é, uma falta de razão, a girafa Doroteia veio a morrer no zoológico de Sapucaia na recente entrada da primavera. Primeiro, morreu sua companheira Fifi; a seguir, veio a depressão que resultou em apatia e em um problema cardiorrespiratório. Uma girafa pode ultrapassar os vinte e cinco anos de idade, mas a Dorotéia se foi aos quinze.
Escravos humanos que conheceram o sentimento de melancolia, tristeza e banzo nos diferentes períodos de escravidão da história humana entenderiam sem maior esforço por que os animais morrem quando submetidos a situações prolongadas de desesperança. A capacidade de senciência os iguala a nós no que diz respeito ao mundo das sensações e dos sentimentos, e deve cada vez mais lhes garantir o direito de escolha.
Nesta semana, depois de burlar os aparelhos censores da Bienal portando algemas nos seus pertences, ativistas paulistas se ataram a corrimões da Exposição e dali protestaram até que o IBAMA os ouvisse e desse um prazo para o artista devolver os urubus ao ambiente de origem.
Defensores dos animais se mobilizam nesse momento no Rio Grande do Sul para que a Fundação Zoobotânica não “importe” novas girafas para substituir a que morreu de tristeza. Eles sabem que as crianças aprendem mais sobre a natureza ao respeitar seus direitos do que com a experiência de ver uma girafa definhando e portando o olhar meigo e triste, que busca, no espaço vazio entre seu olho e o objeto mais próximo, alguma cena do passado junto à sua família original, lá nos seus pagos.
Há sempre um quê de desproporção e incompletude nas causas pontuais que abraçamos, mas elas valem pelo conteúdo simbólico e educativo. Centenas de animais definham nas lojas e agropecuárias aguardando, como se mercadorias fossem, por um comprador que na sua boa fé alimenta tal comércio, milhares tentam sobreviver emocional e fisicamente nas ruas das cidades, milhares seguem puxando carroças enquanto a lei municipal não chega ao seu prazo-limite, ao fim do qual seu destino é incerto, e um número impensável segue prensado nas fazendas produtoras, transportado em caminhões-morgue até matadouros, os quais, como disse Paul McCartney, se tivessem paredes de vidro, tornariam a todos vegetarianos. A sensibilidade contemporânea, a mesma que não há de conceber aves como forma de arte, já não aceita a morte de seres inocentes para seus prazeres. É o fato de toda a matança acontecer muito longe dos nossos olhos que garante que esse comércio baseado na usurpação do direito dos animais de ser e de viver se prolongue tanto.
A luta pela libertação dos urubus e a luta pela não importação de novas girafas são válidas para que pensemos não apenas nos três urubus e nas três girafas, mas em todos os animais que, como nós, devem ter direito a escolher e, sobretudo, a escolher a liberdade.