Logo_gae GRUPO PELA ABOLIÇÃO DO ESPECISMO


  • Home
  • O GAE
  • Campanhas
  • Agenda
  • Artigos
  • Notícias
  • Vídeos
  • Livros
  • Abolicionista
  • Contato

ARTIGO

Girafas, urubus e outros bichos


Maria de Nazareth Agra Hassen

Mudanças concretas que devem ser vistas também como simbólicas.


Urubu
O cenário é sempre movimentado. No campo de defesa dos direitos animais, mal sai de cena uma forma brutal de exploração, rapidamente entra outra. São Paulo assistiu, impactada, à instalação de artista plástico que levou para dentro da 26ª Bienal três urubus, que pretendia lá manter até dezembro. O impacto se deveu menos à inusitada concepção de “arte” e mais à crueldade desprovida de senso moral ou estético impetrada contra inocentes aves, transportadas para ambiente artificial e altamente estressante.

Por uma razão assim, isto é, uma falta de razão, a girafa Doroteia veio a morrer no zoológico de Sapucaia na recente entrada da primavera. Primeiro, morreu sua companheira Fifi; a seguir, veio a depressão que resultou em apatia e em um problema cardiorrespiratório. Uma girafa pode ultrapassar os vinte e cinco anos de idade, mas a Dorotéia se foi aos quinze.

Escravos humanos que conheceram o sentimento de melancolia, tristeza e banzo nos diferentes períodos de escravidão da história humana entenderiam sem maior esforço por que os animais morrem quando submetidos a situações prolongadas de desesperança. A capacidade de senciência os iguala a nós no que diz respeito ao mundo das sensações e dos sentimentos, e deve cada vez mais lhes garantir o direito de escolha.

Nesta semana, depois de burlar os aparelhos censores da Bienal portando algemas nos seus pertences, ativistas paulistas se ataram a corrimões da Exposição e dali protestaram até que o IBAMA os ouvisse e desse um prazo para o artista devolver os urubus ao ambiente de origem.

Defensores dos animais se mobilizam nesse momento no Rio Grande do Sul para que a Fundação Zoobotânica não “importe” novas girafas para substituir a que morreu de tristeza. Eles sabem que as crianças aprendem mais sobre a natureza ao respeitar seus direitos do que com a experiência de ver uma girafa definhando e portando o olhar meigo e triste, que busca, no espaço vazio entre seu olho e o objeto mais próximo, alguma cena do passado junto à sua família original, lá nos seus pagos.

Há sempre um quê de desproporção e incompletude nas causas pontuais que abraçamos, mas elas valem pelo conteúdo simbólico e educativo. Centenas de animais definham nas lojas e agropecuárias aguardando, como se mercadorias fossem, por um comprador que na sua boa fé alimenta tal comércio, milhares tentam sobreviver emocional e fisicamente nas ruas das cidades, milhares seguem puxando carroças enquanto a lei municipal não chega ao seu prazo-limite, ao fim do qual seu destino é incerto, e um número impensável segue prensado nas fazendas produtoras, transportado em caminhões-morgue até matadouros, os quais, como disse Paul McCartney, se tivessem paredes de vidro, tornariam a todos vegetarianos. A sensibilidade contemporânea, a mesma que não há de conceber aves como forma de arte, já não aceita a morte de seres inocentes para seus prazeres. É o fato de toda a matança acontecer muito longe dos nossos olhos que garante que esse comércio baseado na usurpação do direito dos animais de ser e de viver se prolongue tanto.

A luta pela libertação dos urubus e a luta pela não importação de novas girafas são válidas para que pensemos não apenas nos três urubus e nas três girafas, mas em todos os animais que, como nós, devem ter direito a escolher e, sobretudo, a escolher a liberdade.




Sobre o autor

Maria_de_nazareth_agra_hassen
Maria de Nazareth Agra Hassen
Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Mestre em Antropologia Social e Graduada em Filosofia, atualmente é professora no Centro Universitário Ritter dos Reis, onde leciona antropologia e filosofia nos cursos de Direito e Pedagogia. Recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura, categoria Ensaio de Humanidades (2000) pelo livro de sua dissertação, O Trabalho e os Dias: ensaio antropológico sobre trabalho, crime e prisão. Coordena a *Coleção Filosofinhos*, tendo escrito os volumes Sócrates, Platão e Descartes (Prêmio Os Correios e o Sul, 2003) e é uma das autoras de *Aqui dentro há um longe imenso*, novela juvenil.

Artigos deste autor
Por que lutar por jaulas vazias?
Em Defesa da Abolição dos Experimentos com Animais
Pelo Progresso da Ciência
UM EXÉRCITO PARA DEFENDER A TERRA:
Gaúchos amam e maltratam animais
Girafas, urubus e outros bichos
Roudinesco e Derrida: se queremos saber "de que amanhã"...
SEDA ou SEBA: os perigos da autonomeação
DIDA 2011 PORTO ALEGRE
Por que não devemos comer o presépio
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
Média 5,0 · 13 votos
Tag Sem tags.
Comentar com usuário:


ARTIGOS
Bar da Gringa: fim de uma era   Elegia ao famoso e inesquecível Bar da Gringa que fechou suas portas em Porto Alegre no mês passado. Temporariamente, esperamos.
Por que não devemos comer o presépio   À data mais sagrada dos cristãos equivale a maior matança de animais por motivo fútil do ano.
DIDA 2011 PORTO ALEGRE   Porque refletir é bom e necessário à causa.
Animais e religião   O resgate de um pobre animal jogado em um despacho na cidade de Rio Grande, originou intensa polêmica e indignação com a crueldade. Foi matéria muito comentada na página on line do jornal agora. Ressalva: foi registrado o termo de ocorrência como crime de maus tratos a animais na polícia civil, que resistência alguma opôs para registrar.
NOTÍCIAS
Calçados masculinos veganos de qualidade   Homens conscientes dos direitos animais costumam reclamar da dificuldade de encontrar calçados masculinos confortáveis, estéticos, duráveis. Essa possibilidade está ao alcance por meio de um abaixo-assinado.
Protestar é bom, mas fazer é ainda melhor: COLAMA   Parabéns a Róber Bachinski pela iniciativa do I CONGRESSO LATINO-AMERICANO DE MÉTODOS ALTERNATIVOS AO USO DE ANIMAIS NO ENSINO, PESQUISA E INDÚSTRIA
La Rouge Bistrô: novo espaço vegano em Porto Alegre   Com abertura ao público a partir desta terça-feira, La Rouge Bistrô é uma nova opção, deliciosa, sofisticada e ética. Excelente para responder a insistente pergunta: o que comem os veganos?
Não queremos fogos de artifício na passagem de ano   Desperdício de dinheiro público, espetáculo desnecessário e ultrapassado, Porto Alegre tem que conviver com mais esta forma de agressão aos animais.Patrocinada pela Prefeitura que tem uma Secretaria de "Direitos Animais".
AGENDA   ver agenda completa

ABOLICIONISTA
Preencha seu e-mail para receber notícias:

Twitter · Orkut · Facebook · RSS